Em meio a tanta violência e corrupção política que acaba ocupando todo o espaço da mídia, acabamos nos esquecendo de outros assuntos também de grande importância. Assim é que uma reportagem sobre a “nova família brasileira” esteve na revista de maior circulação no Brasil na edição de 23 de maio deste ano. No bloco sobre comportamento a revista Veja apresentava a chamada que dizia respeito à “busca pela justiça em como lidar com os conflitos que surgem na nova família brasileira, com seus hábitos e costumes que ainda não estão previstos nas leis”.
Isto mesmo, “costumes e hábitos que não estão previstos nas leis”. Esta frase chama a atenção. Depois de tanto já legislado sobre família, o que ainda não estaria previsto? O enteado entra com um processo pedindo pensão do padrasto que já não vive com sua mãe; o filho pede indenização ao pai, há muitos anos ausente na sua vida, por abandono afetivo; o pai biológico de uma criança e o homem que a criou de fato brigam legalmente por sua guarda. Casos novos que deixam os juízes sem leis claras e específicas para ampará-los em suas decisões.
O mais preocupante é o que leva a estes novos casos. A sociedade tem chamado a isso: nova família brasileira. Na verdade uma reviravolta na família, e há de se registrar, reviravolta nada sadia. O impasse dos juízes tem origem na ampla aceitação do divórcio no país. Um crescimento de 55% nos anos entre 1995 e 2005. A guarda do filho era responsabilidade da família que o gerava. Com tantas separações as disputas tiveram início e até a prioridade de guarda para a mãe já é, desde 2003, discutida tendo ela que provar ter melhores condições financeiras e emocionais. O uso do teste de DNA como prova contundente de paternidade se tornou necessário por que em um grande número de casos não se sabe quem, de fato, é o progenitor. Até pouco tempo a lei não se preocupava em saber quem era o pai e a mãe verdadeiros. A legitimidade do filho era determinada pelo casamento.
Além destes existem outros dados que são de estarrecer e que explicam a dificuldade dos magistrados. Que explicam bem como o “porquê” de estarem chamando a isto tudo de “nova família brasileira”. De acordo com a reportagem, as uniões consensuais, em que o casal mora junto, sem se casar no papel, aumentaram em 90% entre 1991 e 2000. 6% dos domicílios brasileiros são ocupados pelo que o IBGE chama de “novos arranjos familiares”, como casais homossexuais. 15% dos casais não têm filhos e ações pedindo reconhecimento de paternidade e pensão alimentícia representam 9 em cada 10 processos nas varas de família das capitais.
A reportagem ainda cita, como exemplo, com foto e parte da certidão de nascimento estampadas, o caso da menina que possui tal documento onde constam os nomes dos dois pais (isso mesmo, dois pais e nenhuma mãe).
E a igreja diante disto tudo, o que fazer? Apenas recriminar, apontar o pecado e suas conseqüências seria suficiente como atitude da parte da Igreja. Ficar indignada com tudo isto e manifestar esta indignação seria o suficiente. Temos um padrão de família a ensinar e este é composto de pai, mãe e filhos. Mas enquanto ensinamos, e não devemos deixar de primar por este ensino, o que fazer com os que são “diferentes”. A igreja também entrou no terceiro milênio e continua competindo a ela cuidar das “famílias”. Mesmo que esta família seja composta de um pai ou uma mãe e filhos, resultado de um viuvês, ou, quem sabe, de uma separação. Como apoiar a avós que se vêem obrigados a serem pais novamente, por que seus filhos precisam de quem cuidem dos netos enquanto desenvolvem suas carreiras? Como ajudar pessoas que depois de uma vida solteira ou de viúvês resolvem se casar. E caso não queiram se casar, quem apóia a estas pessoas. Como ser bênção na vida de crianças que carregam as marcas de um divórcio para que elas sonhem com um casamento nos moldes que a Palavra ensina?
Continuamos com a responsabilidade de ensinar os padrões bíblicos de família, mas isto não nos isenta de cuidarmos dos feridos. A nova proposta da classe de família de nossa igreja é estudar exatamente estes assuntos. Quando um tema como este é estampado numa revista de circulação nacional, é como se fossemos cobrados diretamente de nossas responsabilidades. A nova família brasileira está por aí.
Até mesmo dentro de nossas igrejas. Está na hora de pensarmos na nova igreja brasileira que cuide destas famílias, principalmente se continuamos acreditando que família é a célula mater da sociedade e um projeto de Deus desde o Éden.